Há muitos a escrever poesia.
há talvez menos a ler poesia.
E de todo o lado a poesia é expulsa.
Dos programas escolares, das livrarias, das editoras.
Do outro lado, ficam alguns a escrever e a ler cada vez mais sós.
Mas, porque continua a poesia existir ?
Apetece dizer que o mistério faz parte da sua natureza. E também o mistério da sua existência.
Pessoas, que muito estimo, dizem-me: eu não entendo nada do que aqui está.
E a minha resposta costuma ser: tenta ler o que lá está. só o que lá está. com o que lá está.
Se, por acaso faz parte das pessoas que leêm poesia e quiser partilhar as suas razões, basta colocar um comentário. Se é dos que não entendem, mas gostava de entender, diga também.
Aqui vai uma ironia rimada (dos meus dias de tirocínio da leitura e da escrita da mesma):
ResponderEliminarPoesia
terapia de gente com azia
corações de canela na aletria
um prémio na lotaria.
um prémio na lotaria, isso seria muito poético, sim senhor. obrigada. e sorte na lotaria.
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarHá, desse não-entendimento de quem lê, duas vias que concebo: a primeira é, mundana, a falta de atenção por parte do leitor, de afinco, de dedicação ou até de espaço mental para consagrar ao poema — entendível, num mundo de conteúdos imediatos e literaturas lights para consumo fast muito mais sedutores; a segunda, mais grave, advém de uma pseudo-erudição de alguns poetas, de uma certa Poesia intrincada e labiríntica, na forma e no verbo, em que se acoita um corporativismo academista que se auto-alimenta — pobremente, diga-se, mas orgulhosamente só.
ResponderEliminarPessoalmente, acho que a Poesia deve nascer da depuração da palavra. Literalmente, torná-la pura, mais próxima de nós e da nossa emotividade. De igual modo, a leitura do poema deve ser um acto de depuração da leitura, da pequena descoberta que se conquista com desprendimento e dedicação.
Quando se lê desse longe nenhum poema nos toca. Quando se escreve afastando as palavras do que somos, em prol de uma pretensa estética rendilhada e insolente, nenhum poema levará consigo o braço do poeta.
E deixo, já agora, um «comentário»:
ResponderEliminarPoÉtica
Lento, na palavra, a depuração.
Intento, no poema, o toque.
Outro invento, que se foque
— tanta luz, nenhum choque.
É só de vento o coração.
(inédito, Renato Filipe Cardoso)